As palavras ditas em casa, na visão da psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, têm um peso enorme na forma como a criança aprende a se enxergar. Rótulos como “o bagunceiro”, “a tímida” ou “o sensível”, repetidos com carinho ou por brincadeira, podem virar uma espécie de identidade que a criança passa a carregar e a cumprir. Entender como esses apelidos influenciam a autoestima ajuda as famílias a escolher palavras que descrevem comportamentos, e não pessoas, abrindo espaço para que cada criança se perceba capaz de mudar e de se expressar com liberdade.
Como nascem os rótulos dentro da família?
Quase toda família tem seus apelidos: um irmão é “o estudioso”, outro é “o danado”, a caçula é “a dengosa”. Esses rótulos costumam surgir de forma espontânea, a partir de um comportamento marcante que alguém percebeu e repetiu até virar descrição oficial. Em geral, não há má intenção: são formas rápidas de falar da criança, ditas com afeto.
Taiza Tosatt Eleoterio observa que o problema não está no apelido carinhoso, e sim na fixação de uma imagem única. Uma criança que foi agitada em uma fase pode ser chamada de “agitada” por anos, mesmo depois de mudar, e a descrição deixa de acompanhar o crescimento.
Por que a criança tende a se tornar aquilo que lhe dizem que ela é?
Na infância, a imagem que a criança forma de si vem em grande parte do olhar das pessoas que cuidam dela. Quando ouve repetidamente que é “difícil” ou “envergonhada”, ela tende a incorporar essa descrição e a agir de acordo com ela, porque é uma forma de manter o vínculo e de corresponder ao que esperam. Na psicanálise, isso é parte da construção da identidade, que se faz a partir do outro.
Na prática, a criança passa a se comportar conforme o rótulo, e o rótulo, por sua vez, parece ganhar confirmação. Se todos dizem que ela é tímida, cada vez que ela hesita, a família enxerga ali a prova da timidez, sem perceber que a própria expectativa pode estar contribuindo para o comportamento. O resultado é um círculo que dificulta experimentar outras formas de ser.
Rótulos “positivos” também pesam
Existe a ideia de que só os rótulos negativos fazem mal, mas os positivos também carregam peso. Ser chamado de “o inteligente” ou “a responsável” parece elogio, e muitas vezes é. O risco aparece quando a criança sente que precisa sustentar a imagem o tempo todo, porque errar ou pedir ajuda parece contrariar o que dela se espera.
Na ótica de Taiza Tosatt Eleoterio, a criança que carrega o papel de “forte” pode esconder a tristeza, e a que é chamada de “a que nunca dá trabalho” pode evitar dizer que precisa de atenção. Isso afeta a autoestima, pois o valor da criança passa a depender do desempenho de um papel, e não de quem ela é. Sentir-se amada mesmo quando erra é uma das bases mais importantes da saúde mental infantil.
Falar do comportamento, e não da pessoa
Uma mudança simples ajuda muito: descrever o que a criança fez, em vez de dizer quem ela é. Em lugar de “você é bagunceiro”, é possível dizer “hoje o quarto ficou bem desorganizado, vamos arrumar juntos”. Em vez de “ela é tímida”, pode-se dizer “ela está observando antes de entrar na brincadeira”. A diferença é pequena nas palavras, mas grande no efeito.
Os adultos podem praticar essa troca com paciência, sem exigir perfeição. Falar do comportamento deixa claro que ele é passageiro e que a criança pode agir de outra forma amanhã. Também preserva o vínculo, pois a crítica vai ao ato, e não ao caráter, mantendo um ambiente familiar em que errar é possível.
Pequenas trocas de palavras no dia a dia
Na rotina, algumas atitudes ajudam a desfazer rótulos antigos. Notar e comentar os momentos em que a criança age de maneira diferente do esperado, como “hoje você falou com todo mundo na festa”, mostra que ela é mais ampla do que o apelido. Evitar apresentar a criança a outras pessoas com uma definição (“ele é assim mesmo”) também faz diferença, porque ela ouve e registra.
Vale ainda conversar com avós, tios e outros cuidadores, explicando com gentileza que a família está tentando mudar a forma de falar. O importante é que a criança perceba, aos poucos, que ninguém espera que ela seja sempre a mesma.
Menos rótulos, mais espaço para a criança ser quem é
Com base no que foi discutido, percebe-se que os rótulos nascem do afeto e da pressa, mas podem restringir o modo como a criança se vê. Trocar definições por descrições do que ela faz, reconhecer mudanças e valorizar quem ela é para além do papel são caminhos que fortalecem a autoestima e a saúde mental familiar, sem exigir grandes transformações.
Taiza Tosatt Eleoterio frisa que cada família tem suas expressões e seu jeito de brincar, e que o objetivo não é policiar todas as palavras, e sim ficar atenta ao que elas comunicam. Quando a criança cresce ouvindo que pode ser muitas coisas, ela ganha liberdade para experimentar, errar e se reinventar, e a psicanálise mostra que essa liberdade é um dos pilares de uma infância saudável.
