EUA e Irã assinam acordo de paz nesta sexta-feira; entenda os 14 pontos que podem encerrar a guerra

Por Diego Rodríguez Velázquez
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Cerimônia ocorre na Suíça após meses de conflito, e acordo prevê reabertura do Estreito de Ormuz e fundo de investimentos para Teerã, mas dúvidas sobre o programa nuclear iraniano ainda dividem analistas

Depois de meses de conflito armado entre Estados Unidos, Israel e Irã, o mundo acompanha nesta sexta-feira (19) um momento que pode marcar uma virada na crise do Oriente Médio. A cerimônia oficial de assinatura do acordo de paz entre Washington e Teerã está marcada para ocorrer na Suíça, conforme confirmado pelo primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, e pelo presidente americano Donald Trump nos últimos dias. O entendimento foi anunciado no domingo (14), mas o texto completo só foi divulgado nesta quarta-feira (17), trazendo detalhes que ajudam a entender o alcance real do acordo.

A pergunta que move analistas, investidores e a opinião pública internacional é direta: esse acordo realmente coloca fim à guerra ou é apenas uma pausa temporária em um conflito que já mudou o equilíbrio de forças no Oriente Médio? O documento, apresentado na forma de um memorando de entendimento com 14 pontos, traz sinais de avanço concreto, como a reabertura do Estreito de Ormuz e um período de negociações técnicas, mas também deixa abertas questões delicadas, como o futuro do programa nuclear iraniano e a posição de Israel diante do entendimento.

O que está previsto no acordo entre Estados Unidos e Irã

Segundo o texto divulgado pelo governo americano e detalhado pela revista Exame, o memorando de entendimento estabelece que Estados Unidos e Irã concordam em interromper as hostilidades, reabrir o Estreito de Ormuz à navegação internacional e iniciar um período de negociações de dois meses para chegar a um entendimento mais amplo sobre os temas que ainda dividem os dois países. O Estreito de Ormuz é uma das rotas energéticas mais estratégicas do planeta, responsável por cerca de um quinto do abastecimento mundial de petróleo e de parte significativa das exportações de gás natural liquefeito do Golfo Pérsico, o que explica por que sua reabertura tem peso direto sobre os mercados internacionais de energia.

Outro ponto que chamou atenção no acordo é a previsão de um fundo bilionário de investimentos destinado a Teerã, estimado em R$ 1,5 trilhão, segundo informações da própria Exame. Esse componente econômico sugere que parte da estratégia americana para garantir a adesão iraniana ao acordo passa por oferecer incentivos financeiros concretos, em vez de depender apenas de garantias diplomáticas. Ainda assim, o presidente Trump declarou ao jornal The Wall Street Journal que “não há pressa” para resolver questões mais sensíveis, como o programa nuclear iraniano e o desenvolvimento de mísseis balísticos pelo país, temas que ficarão para as negociações técnicas previstas no período de dois meses após a assinatura.

A reabertura do Estreito de Ormuz, porém, não será imediata. Segundo publicações do próprio Trump em redes sociais, citadas pelo portal Correio do Brasil, a passagem só deve ser liberada após o dia 19 de junho, justamente por causa da necessidade de remoção de minas na região, um processo que envolve riscos operacionais consideráveis para qualquer embarcação que tente cruzar o estreito antes da conclusão dos trabalhos de desminagem.

Quem participou das negociações e qual o papel de cada país

O acordo entre Estados Unidos e Irã não teria sido possível sem a atuação de uma rede de países mediadores que se envolveram diretamente nas negociações dos últimos meses. Segundo o primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif, que anunciou o entendimento inicial em publicação na rede social X, o Catar, a Arábia Saudita e a Turquia tiveram papel decisivo no esforço diplomático que culminou no acordo, além do próprio Paquistão, que serviu como canal de comunicação entre Washington e Teerã durante boa parte do processo.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou o entendimento como um “passo crucial” para o fim do conflito, segundo nota divulgada pela ONU News. Guterres expressou “profunda gratidão” pelo papel desses países na condução das negociações e afirmou esperar que as partes aproveitem o momento para redobrar esforços rumo a uma resolução mais definitiva da crise. Já o alto comissário de Direitos Humanos da ONU, Volker Turk, destacou que o conflito teve impacto arrasador sobre os direitos humanos em toda a região, repudiando o uso da força tanto por parte de Israel quanto dos Estados Unidos durante os meses de combate, que segundo a organização causaram a morte de milhares de civis, incluindo centenas de crianças.

Do lado iraniano, o vice-ministro das Relações Exteriores, Kazem Gharibabadi, confirmou o acordo em entrevista à televisão estatal do país, afirmando que o texto do memorando de entendimento seria divulgado integralmente apenas após a assinatura formal na Suíça. Essa cautela na divulgação dos detalhes reflete a sensibilidade política do tema tanto em Teerã quanto em Washington, onde setores mais resistentes ao entendimento, especialmente os que defendem uma linha mais dura contra o programa nuclear iraniano, podem pressionar para reabrir pontos da negociação.

Quais incertezas ainda rondam a implementação do acordo de paz

Apesar do otimismo declarado pelos governos envolvidos, o acordo enfrenta obstáculos que podem comprometer sua aplicação prática nas próximas semanas. Um dos principais pontos de tensão é a posição de Israel, já que o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu colocou em risco a própria assinatura ao realizar novos ataques no Líbano pouco antes do anúncio do entendimento, segundo reportagem do InfoMoney. Esse tipo de ação evidencia que nem todos os atores diretamente envolvidos no conflito regional compartilham do mesmo entusiasmo em relação ao acordo fechado entre americanos e iranianos.

Internamente, Trump também pode enfrentar resistência de setores mais duros dentro do próprio governo e do Congresso americano, que temem que o acordo deixe em segundo plano justamente os temas que motivaram o início do conflito, como o programa nuclear iraniano e o arsenal de mísseis balísticos do país. O presidente americano, por sua vez, garantiu que “nunca” buscou uma mudança de regime no Irã, mesmo tendo incentivado manifestantes iranianos durante os meses mais tensos do conflito, uma contradição que segue sendo debatida por analistas de política internacional.

Para o mercado financeiro global, a notícia tende a reduzir, ao menos no curto prazo, o risco de uma retomada imediata da guerra, aliviando parte da pressão sobre os preços do petróleo e sobre os mercados de energia que vinham sofrendo com a instabilidade no Golfo Pérsico desde o início do conflito. A cerimônia de assinatura em território suíço deve contar com a presença do vice-presidente americano JD Vance, e a expectativa de governos e organismos internacionais é que esse seja realmente o primeiro passo concreto para transformar um cessar-fogo frágil em uma paz mais duradoura na região, ainda que muitos detalhes técnicos só devam ser resolvidos nos próximos dois meses de negociação.

Fontes: Exame, ONU News, InfoMoney

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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