Além do açúcar: Lucas Peralles explica o que a ciência diz sobre adoçantes artificiais

Por Diego Rodríguez Velázquez
6 Min de leitura
Lucas Peralles

Trocar refrigerante comum por versão diet ou zero parece, à primeira vista, uma escolha metabolicamente neutra, quase óbvia para quem busca reduzir calorias. Lucas Peralles, nutricionista esportivo e especialista em comportamento alimentar, explica que a ciência mais recente vem complicando bastante essa suposição, mostrando que adoçantes artificiais não são compostos metabolicamente inertes, como se acreditava até pouco tempo atrás.

Uma revisão publicada em periódico especializado descreveu como diferentes adoçantes, incluindo sucralose, sacarina, acessulfame de potássio e aspartame, alteram a diversidade da microbiota intestinal e a produção de ácidos graxos de cadeia curta, moléculas com papel direto na regulação da glicose e da sensibilidade à insulina. Diante desse tipo de achado, tratar todos os adoçantes como equivalentes entre si, ou simplesmente como substitutos seguros do açúcar em qualquer contexto, ignora nuances que a pesquisa já começa a esclarecer com mais precisão.

Como um composto sem calorias consegue alterar o metabolismo do corpo?

Pesquisadores identificaram diversos mecanismos pelos quais adoçantes artificiais interferem em processos biológicos, incluindo a modulação de receptores sensores de nutrientes acoplados à proteína G, interferência no metabolismo de ácidos biliares e ativação de vias intracelulares de sinalização relacionadas ao crescimento e ao metabolismo celular. Um detalhe chama atenção nesse conjunto de estudos: a resposta a esses compostos parece extremamente individualizada e dependente da dose utilizada, o que ajuda a explicar por que pesquisas diferentes chegam a conclusões nem sempre consistentes entre si.

Lucas Peralles costuma citar justamente essa variabilidade individual como um dos pontos mais importantes dessa discussão, já que explica por que algumas pessoas relatam pouca ou nenhuma alteração perceptível ao consumir adoçantes regularmente, enquanto outras apresentam mudanças mensuráveis na tolerância à glicose após exposição prolongada aos mesmos compostos. Essa heterogeneidade reforça que decisões sobre consumo de adoçantes dificilmente deveriam seguir uma regra genérica aplicável a qualquer pessoa.

Os riscos observados vão além do impacto sobre a microbiota intestinal?

Sim, e essa é uma parte da discussão que preocupa parte da comunidade científica. Uma revisão clínica abrangente relacionou o consumo elevado de adoçantes artificiais a maior risco de distúrbios metabólicos, doenças cardiovasculares e, de forma paradoxal, ganho de peso, o oposto do que a maioria das pessoas espera ao optar por versões sem açúcar de bebidas e alimentos. Estudos como a Women’s Health Initiative relacionaram bebidas adoçadas artificialmente a maior risco de acidente vascular cerebral, doença coronariana e mortalidade, mesmo após ajuste para fatores de risco tradicionalmente considerados.

Lucas Peralles
Lucas Peralles

Esse tipo de resultado contraintuitivo, segundo Lucas Peralles, provavelmente reflete uma combinação de fatores comportamentais e biológicos: pessoas que consomem adoçantes podem compensar a redução calórica comendo mais em outras refeições, ao mesmo tempo em que os próprios compostos parecem interferir diretamente em processos metabólicos relacionados ao apetite e à regulação da glicose. Separar o que é efeito direto do adoçante do que é consequência do comportamento alimentar associado ainda representa um desafio metodológico real para os pesquisadores da área.

Todo adoçante artificial se comporta da mesma forma no organismo?

Definitivamente não. Pesquisas recentes indicam que sacarina e sucralose parecem provocar alterações mais expressivas na composição da microbiota intestinal do que outros compostos, enquanto glicosídeos de esteviol, extraídos de fontes naturais, têm sido investigados separadamente por apresentarem perfil de interação potencialmente diferente com o ecossistema intestinal. Um estudo recente de grande porte, conhecido como projeto SWEET, está justamente comparando diferentes adoçantes e realçadores de doçura quanto aos efeitos sobre peso corporal e microbiota em pessoas com sobrepeso ou obesidade.

Esse tipo de distinção reforça, segundo Lucas Peralles, que perguntar apenas “adoçante faz mal?” é uma simplificação exagerada de uma questão que a ciência trata com bem mais granularidade, considerando o composto específico, a dose utilizada e o perfil metabólico de quem consome. Órgãos reguladores, como a Agência Europeia de Segurança Alimentar e a Agência Americana de Medicamentos e Alimentos, continuam reavaliando periodicamente a segurança desses compostos à medida que novas evidências surgem.

Como decidir, na prática, o que fazer com essa informação ainda em construção?

Reconhecer que adoçantes artificiais não são metabolicamente neutros não significa que devam ser evitados a qualquer custo, mas sim que seu consumo merece a mesma atenção crítica dedicada a qualquer outro componente da alimentação. Para pessoas com resistência à insulina ou histórico de alterações metabólicas, reduzir tanto açúcar quanto adoçantes artificiais, priorizando água e bebidas naturalmente não adoçadas, tende a ser a escolha mais prudente diante da incerteza científica ainda existente.

Lucas Peralles resume que esse é um exemplo claro de como a nutrição baseada em evidência exige acompanhar a ciência em constante atualização, evitando tanto o pânico infundado quanto a confiança excessiva em produtos apenas porque carregam o rótulo de “sem açúcar”. Assim, entender essa complexidade é essencial para qualquer pessoa que deseje tomar decisões verdadeiramente informadas sobre o próprio consumo diário de bebidas e alimentos adoçados artificialmente.

 

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