Yuri Silva Portela indica que antes mesmo do amanhecer, os carros já começam a ser carregados com equipamentos, doações e tudo o que será necessário para mais um dia de atendimento no Sertão de Quixadá. À frente dessa mobilização está Yuri Silva Portela, fundador do Humaniza Sertão, iniciativa social sem fins lucrativos que há três anos percorre comunidades de difícil acesso, levando cuidado, acolhimento e suporte a quem mais precisa. Entre equipamentos odontológicos, materiais de fisioterapia, fraldas, cestas básicas e instrumentos de atendimento multidisciplinar, cada ação representa mais do que assistência: representa presença, escuta e dignidade para populações que muitas vezes convivem com a ausência de serviços essenciais.
Entender essa realidade é fundamental para quem quer apoiar, replicar ou simplesmente compreender o que o voluntarismo qualificado pode fazer. Continue a leitura.
O que envolve a preparação de uma ação de saúde comunitária?
Semanas antes do dia marcado, Dr. Yuri Silva Portela e sua equipe iniciam um processo de mobilização que envolve comunicação com lideranças locais, levantamento de demandas da comunidade e organização das especialidades que serão disponibilizadas. Mais de 20 profissionais precisam coordenar agendas, separar materiais e garantir que cada área chegue com o que precisa para atender com qualidade. Fisioterapeutas, dentistas, psicólogos, neuropsicopedagogos, advogados, nutricionistas e barbeiros compõem esse corpo multidisciplinar, que voluntariamente dedica um dia por mês às ações sociais.
A captação de doações é parte integral do processo. Cestas básicas, fraldas e outros itens essenciais são coletados com antecedência, pois muitas famílias atendidas vivem em situação de vulnerabilidade alimentar e social aguda. A doação material não é um complemento da ação: é muitas vezes o que permite que uma família atravesse as próximas semanas com condições mínimas de dignidade.
O deslocamento até localidades de difícil acesso é, em si, um desafio logístico. Estradas de terra, distâncias consideráveis e a ausência de infraestrutura local exigem planejamento cuidadoso. Cada detalhe mal resolvido na preparação pode comprometer o atendimento no dia da ação. Por isso, Yuri Silva Portela expõe que a organização que precede cada missão é tão importante quanto a execução.

Como transcorre um dia de atendimento multidisciplinar no sertão?
Os voluntários reunidos por Yuri Silva Portela montam os espaços de atendimento com rapidez e precisão, criando ambientes que respeitam a privacidade dos atendidos, mesmo em condições improvisadas. As filas se formam naturalmente, e em poucos minutos o espaço ganha vida própria: crianças sendo avaliadas por neuropsicopedagogos, adultos conversando com psicólogos, idosos recebendo fisioterapia, famílias consultando advogados sobre direitos básicos que jamais souberam que tinham.
O atendimento odontológico costuma gerar as filas mais longas. Em regiões sem acesso regular a dentistas, dores crônicas convivem com as pessoas por anos, sem diagnóstico e sem tratamento. Quando o cuidado finalmente chega, o alívio é imediato e visível. O mesmo vale para a barbearia, que pode parecer secundária diante das especialidades clínicas, mas carrega um significado humano profundo: ser cuidado no próprio corpo, sentir-se visto e respeitado.
O impacto que não cabe em números
Os dados de atendimento mostram volume, mas não capturam o que realmente acontece. Quantificar o alívio de uma criança que, pela primeira vez, recebe avaliação neuropsicopedagógica e tem suas dificuldades explicadas com cuidado é impossível. O mesmo vale para o idoso que chega curvado de dor e sai com orientações de fisioterapia que vão mudar sua rotina. Ou para a mãe que recebe fraldas suficientes para o mês e chora de gratidão. O Humaniza Sertão, criado por Yuri Silva Portela, transforma cada um desses momentos em prova concreta de que o cuidado organizado chega onde o sistema não alcança.
O acúmulo dessas experiências, multiplicado por três anos e por diversas comunidades, produz um impacto que transcende o individual. Cria-se um registro de que existe quem se importe, de que o Estado e a sociedade não são abstrações distantes. Para populações acostumadas à invisibilidade, esse registro tem valor imenso.
A frequência mensal da ação é, ao mesmo tempo, limitação e marca de consistência. Um dia por mês não resolve tudo, mas estabelece uma presença regular que as comunidades aprendem a esperar. E esperar por cuidado, quando ele realmente chega, já é, por si só, uma forma de saúde.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
